Em nosso primeiro artigo no Financial Web passamos uma visão de como os credores vinham se apresentando para a recuperação judicial de seus devedores.
De fato, para a grande maioria dos fornecedores financeiros e de produtos, recuperação judicial é tema mais do que proibido enquanto “o pulso da empresa ainda pulsa”. Nada mais equivocado!
Diferentemente do que havia no passado com a concordata, participar ativamente da recuperação de um cliente estratégico pode trazer uma série de vantagens para ambos. A idéia de que só se conhece um parceiro verdadeiro na hora da dificuldade é premissa óbvia, mas muito esquecida nestes dias para construção de um relacionamento próspero e duradouro.
Vamos esclarecer. Não pregamos a “filantropia comercial” como saída, pelo contrário, sugerimos pragmatismo no “writ-off”*. Pragmatismo que deve estar presente na hora da concessão do crédito e da negociação com o cliente pré-recuperação.
Maiores credores (normalmente financeiros) e principais fornecedores da empresa endividada, à grande maioria das vezes, têm – ainda que contra-gosto –absoluta ciência de quando seus devedores não suportarão o aperto. Pior (ou melhor), muitas vezes, tem boa idéia dos principais pontos que fragilizam a estrutura de seus clientes, ex. sócios-herdeiros que insistem em “dividendos sem lucros”, “írrita opção por novos negócios deixando de lado o “core” da empresa que paga as contas” e etc.
É nesta esteira que uma conversa franca entre credor e devedor pode fazer toda a diferença. Antecipando um possível equivoco de entendimento, não se trata de dar solução para todos os males. A idéia de credor que incorpora o “messias salvador” não é ou deve ser a tônica dessa investida.
Como dissemos em nosso artigo anterior, o plano de recuperação se bem construído e arquitetado é ferramenta do devedor, mas pode contar com o credor. Ser pró-ativo numa conversa sobre o ingresso em recuperação ou construção do plano de recuperação pode garantir maior ou menor conforto para o fornecimento do dia seguinte.
Grandes fornecedores de serviços básicos como crédito, água, energia, telefonia e etc. tem normalmente em suas carteiras de cobrança inúmeros casos que seguem sem qualquer racionalidade. Resumindo, uma bestial disputa de filigranas jurídicas cega credor e devedor que agora tomam essa questão como moral. Tal “moral”, no entanto, normalmente não é encarada com a mesma paixão por investidores, acionistas ou diretor financeiro responsável pelo fluxo de caixa do credor.
Encerrando o desafio proposto em nosso artigo, temos como certo que jurídico e financeiro precisam rever o timing de suas reuniões. Para o credor cabe decidir se a estratégia junto ao seu devedor será performada sobre dados postos (pós recuperação e oferta do plano) ou sobre uma oportunidade (pré-recuperação) de reaver o credito, estreitando parceira e fornecendo com maior segurança.
Em nosso próximo artigo, vamos trocar idéias sobre a vantajosa “exumação dos créditos tidos por perdidos (por tempo ou mérito) em grandes companhias”. Como transformar alguns desses esqueletos em bons ativos.
* Write-off: termo relativo às operações de crédito baixadas do ativo da empresa, em função da inadimplência do cliente.
Fonte:
www.financialweb.com.br